quando se quebra a ilusão.

Outubro 13, 2008

Decidiu ficar.Ou outra coisa dentro dela,coisa independente,decidiu que  ficaria.
Encaminhou-se à biblioteca,foi encaminhada,puxada pela mão de alguém que não via. Alguém que precisava dos olhos dela pra ver,do coração dela pra sentir. E ela foi,como quem não quer lá muito,mas tem curiosidade. De repente parou,sem deixar de andar,de espanto,por dentro.
Era ele,sentado ao lado de uma menina que não reconheceu,mas que sabia quem era.
Seu coração bateu forte,e mais forte,e mais forte,até ficar fraco. Adentrou a biblioteca pra esconder o susto,depois mágoa,depois solidão,depois o que não cabia mais,o inescondível.
Sentou,achando que assim acharia lugar.
Tinha-o perdido! perdido não era bem a palavra era?pois para perder não seria preciso antes ter? nunca o tivera de verdade.
Mas não achou palavra melhor,mas sentia assim,como se os dois tivessem sido sempre e agora,de um golpe só,deixassem de ser.
A realidade de não tê-lo,sentindo-se sua,era apertada,e vestir-se de ilusão por vezes era mais confortável.
Estava despida agora de qualquer sonho.O que lhe deixou extremamente sensível.
Respirou fundo e saiu,dando as costas,fingindo para si que precisava ir ao banheiro aliviar a bexiga e não a alma,os olhos pesados de desilusão,a boca transborando palavras não ditas e beijos não dados.
Molhou um pouco os cabelos,como se o que lhe preocupasse fossem os fios fora de lugar e não o peito quase fora dela.Voltou,o que lhe fez olhá-lo de frente mais uma vez.
Ele aninhava-se a ela como um gato à sua dona. Sentou-se e abriu um livro.
Sentia-se incomodada como se as paredes fossem de vidro e ele a pudesse ver de onde estava.
Tinha o rosto imóvel,não olhava para os lados,apenas para aquelas
formigas paralíticas no papel que as vezes mais pareciam letras querendo dizer algo.
Teve a impressão de que se olhasse as janelas,poderia ver um beijo, e se não lesse sem parar,ouvindo mentalmente a própria voz,escutaria-os,e isso era demais. Exatamente alí,onde era exigido o silêncio,gritava.

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Florescência

Se do mesmo modo que pode-se abrir o peito: pele, músculos e ossos, até o vermelho e nú coração arquejante, pudesses abrir meu ser: sonhos e medos, até a alma nua e palpitante, encontrarias um lugar escuro e úmido, com cheiro de terra molhada pela chuva. Ali, na terra fértil de minha alma chão lançou o semeador sementes de sonhos que brotaram rompendo a superfície da pele. Delicados botões que estão quase a florir, na ponta de retorcidos galhos de hera, pois já espia colorida a primavera, por sobre o ombro castanho do inverno. ♥ Lenise Marques

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